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A palavra que cura: a linguagem metafórica

8 de out.
3 min de leitura

 Acadêmico José Pereira da Silva

          

 

O ser humano precisa cuidar das palavras. Palavras cultivadas no silêncio precisam de expressão. Evitar as expressões esvaziadas de significado ou manipuladas.  É preciso dar vida as palavras. A palavra precisa de acolhimento.


 As palavras não podem perder seu espírito vital e cada uma delas é um conjunto de relações. As palavras cultivadas cuidam.  Existe uma “medicina narrativa” As palavras permitem o estabelecimento de relações mais humanas.  Não é só o fármaco que cura.  A doença não pode ser vista apenas como uma condição anormal do organismo; é algo que é mais complexo pois implica corpo, psique e alma. Podemos dizer que envolve também a comunidade na qual a pessoa está inserida.


 Do ponto de vista objetivo e científico a doença é caracterizada por desordens orgânicas.  A doença na sua dimensão subjetiva é percebida pela a pessoa que está doente também nos aspectos emotivos e psíquicos. Temos a dimensão social da doença que consiste na percepção que a sociedade tem da doença e do doente.


 É preciso dar a apalavra ao doente através da linguagem metafórica, pois ela é repleta de descrições, de sentimentos e emoções. Existe uma palavra emotiva que precisa vir à tona. A enfermidade possui muitas relações tais como: entre o paciente e a doença, paciente e família, paciente e médico etc.


 Geralmente, quando a alma e a mente padecem, a linguagem pode se tornar inapreensível, poder vir o silêncio. É preciso dar voz as palavras sufocadas. A palavra pronunciada permite apreender pontos de vista diferentes. A palavra pronunciada permite que a pessoa faça parte do processo de cura.


 As palavras acolhidas permitem muitas vezes reacender o motor da vida.  Tem-se um processo de redescoberta. A palavra dita tem efeito muitas vezes curador, a palavra não dita pode adoecer-nos.  O coração tem sentimentos que tem a mesma raiz de afeto, expressa uma relação com o outro e conosco mesmos. Cada palavra é um nó de relações. Assim como precisamos de uma pedagogia do ouvir, também precisamos uma pedagogia da palavra, pois há muita vida calada e submersa nos meandros da consciência e do inconsciente.


  Cada palavra traz uma história que precisa de um tempo para ser contada. É fundamental um tempo para que as palavras possam ser ditas. A palavra nos diz de como podemos permanecer humanos. Cada palavra traz vivências boas ou ruins. A palavra pode nos permitir estar atento a si próprio e em sintonia consigo. A palavra permite compreender os sentidos. Cada palavra ajuda a provar, sentir e saborear a vida. A palavra pode machucar e também curar. A palavra dita numa escuta autêntica permite-nos vermo-nos corretamente. A palavra pode dilatar o coração e abrir novas perspectivas.


 A nossa sociedade propaga uma cultura que incentiva o rendimento e a produtividade e que muitas vezes sufoca as palavras que trazem vida. As palavras adiadas, postergadas. Temos ai a palavra mascarada e o silêncio torturado. A vida é viva quando cultivamos palavras que nos devolvem nossa singularidade. A palavra tem que ter coração e assim como as plantas deve crescer, florir e criar. A palavra precisa ser restaurada pois cada pessoa que a pronuncia é preciosa. Acolher as biografias individuais. Juntar pedaços quebrados. É um trabalho artesanal e arqueológico  de ajudar que cada pessoa possa tirar para fora a verdade de si própria e fazê-la tornar-se ela própria.


(*) – Professor, Doutor José Pereira da Silva

         Acadêmico Efetivo, fundador e titular da Cadeira Perpétua Nº XXVII

        Patrono: Frei José Carlos de Jesus Maria do Desterro

 
 
 

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